quarta-feira, 19 de maio de 2010

16 de maio - Shopping

Acordei por volta da 11h. Havia o plano de ir visitar o forte Amber fazendo o trajeto montado em um elefante, mas isto só poderia ser por volta das 8h da manhã, porque após as 10 o sol fica muito forte e não é mais possível. Perdi a oportunidade de viver esta experiência, mas estou planejando outra ainda mais marcante.
Fomos de carro mesmo visitar o forte. Muito bonito o local, e o forte era gigantesco, mas estava fechado naquele dia, pois havia morrido um ex-presidente da Índia que era do Rajastão e foi decretado luto oficial.
Bem, como não havia muito mais o que se ver, Ram sugeriu irmos fazer compras, das coisas que tinha comentado com ele que queria ver por aqui. Ele ligou pra uns amigos e lá fomos nós nas lojas de souvenirs.
Falei pra todo mundo que não levaria presentes pra ninguém, mas acabei não resistindo e comprando várias coisas. Não estou pensando em ninguém em específico para cada coisa que compro, pois a lista seria grande. Como as coisas são bem baratas estou comprando várias para chegando no Brasil montar uma espécie de bazar indiano de presentes.
Depois Ram me levou a um bom restaurante. Pela primeira vez comi algo realmente bem preparado, e com pouca pimenta, embora ainda não tenha achado nada muito saboroso. Acho que Ram entendeu que só gosto de comida boa, depois da ocasião em que ele parou para comermos na estrada e pediu algo lá em uma venda de rua. O rapaz preparava tudo em uma única grande panela, pegando nas coisas com a mão, e quando montou um pratinho pra me dar pegou um biscoito qualquer, esmagou com a mão e jogou em cima do prato. Posso ser bruto pra várias coisas mas pra comida sou muito sensível. Olhei para aquele prato com uma sensação de asco e falei pra Ram que não queria não. Ele comeu sem problemas, e me apontou um carrinho de sanduíche logo ao lado. Fui lá, pedi qualquer um sanduíche, dei duas mordidas e aquele ambiente sujo, com centenas de pessoas, naquele sem fim de barraquinhas à beira da estrada, e aquele cheiro de lixo e esgoto me nausearam. Dei o que restou do sanduíce para um garotinho pedinte e fomos embora.
Aliás, se algumas pessoas acham que como pouco se espantariam me vendo comer quase nada por aqui. Os pratos já são pequenos, e eu como menos de metade, além de continuar me abstendo de carne. Tenho notado então algumas diferenças no meu humor, vou continuar observando para verificar se são mesmo efeitos da mudança na alimentação, ou no ritmo de sono.
Bem, após o almoço Ram me levou para conhecer um templo dedicado a Shiva. O templo tinha uma aparência bem decadente, mas era bastante frequentado. Havia uma entrada estreita por um portal que daí abria para uma área aberta ao centro. Tirei os sapatos como em todo templo, e continuei descalço. À esquerda vários homens oravam sentados, ao redor de uma grande escultura dourada de uma vaca. O que me chamou a atenção foi que os homens estavam sentados ao redor da vaca, mas olhando para o templo interno de Shiva, ou seja, alguns estavam de frente pra escultura, e outros de costas. Mais adiante várias pessoas entoavam cânticos e fui olhar de perto. Era como uma pequena capela com várias imagens de Shiva pela parede, e uma área central com uma espécie de caixa embutida de aço inoxidável com uma pedra marrom polida no meio e um bezerro dourado em uma lateral. As pessoas ao entrar tocavam no piso do templo e beijavam a mão, ou se abaixavam e beijavam o chão, depois tocavam um sino pendurado no alto. Ao redor da caixa uns 5 homens estavam sentados entoando uma espécie de ladainha, derramando água ou leite sobre a pedra, e esfregando a mesma. Alguns passavam a mão na pedra úmida e pegavam um pouco da mistura para pingar na boca ou cabeça, outros alisavam os pés da escultura de Shiva e baijavam a mão. Fiquei lá um pouco observando o ritual.
De lá fomos visitar o templo Birla. Este templo era bem diferente do outro pois o espaço era muito suntuoso, limpo e organizado, inclusive com lugar para guardar os sapatos que cobrava 1 rúpia. Ram me falou que é o templo que as pessoas ricas e famosas da Índia frequentam, e eles constroem grandes e belos templos por toda Índia. Era uma construção muito bonita, inteiramente em mármore branco. Lá dentro não haviam mesas ou cadeiras, apenas um grande salão onde as pessoas sentavam no chão e um espaço menor, como uma capela, onde ficavam as imagens e adornos de flores. No pé das imagens alguns pássaros bicavam das oferendas que haviam sido colocadas, e ao lado um monge silenciosamente entalhava alguma coisa em madeira. Haviam também vários deuses entalhados em baixo relevo nas paredes, e belos vitrais nas janelas.
Lokesh estava ocupado o dia inteiro, mas à noite nos encontramos e fomos comer algo rápido. Como já era tarde os restaurantes estavam fechados e fomos em uma espécie de lanchonete 24h. Quer dizer, lanchonete só por não ser um restaurante, mas a comida era a mesma de sempre, todos os lugares aqui servem praticamente a mesma coisa, o chapati com os molhos picantes.
Ficamos lá conversando sobre a Índia, as castas, e coisas do tipo antes de eu voltar pro hotel pra dormir.

15 de maio - Jaipur

Acordei por volta do meio dia com o telefonema de Lokesh. Ele e Mayank vieram me visitar, e finalmente encontrei com meu anfitrião.
Mayank anda um pouco apreensivo e bastante ocupado com os preparativos do casamento. Como muita gente já ouviu falar, casamento aqui na Índia é um evento de grandes proporções, que dura vários dias. Pelo que entendi começa 4 dias antes, com uma série de eventos acontecendo com o noivo, e com a noiva, mas então separados um do outro, cada um em sua respectiva casa. Daí, no quinto dia acontece o encontro entre os dois, e então o casamento propriamente dito. Não sei ainda dos detalhes, mas irei me informando aos poucos, só sei que eles estão esperando mais de 1.000 convidados (!!!), sendo que a família de Mayank, o noivo, é responsável pela recepção de 400 deles, e a família da noiva responsável pelos 600 restantes. Lokesh me falou que um casamento é muito caro, custando por volta de 1 milhão de rúpias, sendo que a família da noiva é que é responsável pela maior parte, geralmente 70% dos custos (mulher é sempre mais cara). É muito dinheiro para o povo daqui, mas se formos considerar que equivale a 40 mil reais acaba sendo bem mais barato do que seria gasto no Brasil para uma festa com tantas pessoas, sendo que várias vêm de outras cidades e são os noivos que são responsáveis por providenciarem a hospedagem, incluindo nos hotéis.
Inclusive, Mayank tinha me falado que eu ficaria na casa dele, mas tinha dito a ele que não queria ser invasivo de forma alguma. Ele reservou o hotel para mim e fez questão de deixar tudo pago. Sou um convidado aqui.
Jaipur é uma cidade com grande tradição turística, e por isto são muito hospitaleiros e se orgulham muito disto. É conhecida como a Pink City, pois em 1853 o marajá daqui mandou pintar a cidade toda de rosa, símbolo de hospitalidade, para receber o príncipe inglês, e a tradição permaneceu até hoje. Foi por conta disto que Lokesh me falou que para ele "Guest is God". Aliás, acho que a palavra marajá, na acepção que conhecemos no Brasil, originou-se desta região. Li que durante o império britânico e posteriormente na independência daqui os marajás fizeram alianças e assim conseguiram manter seus títulos e propriedades, e foi nesta época que aconteceu deles viajarem pelo mundo esbanjando riqueza, até que consumiram tudo e hoje possuem uma vida modesta em seus palácios. Vou reservar um momento para conhecer o palácio do marajá, que também é um museu.
Mayank e Lokesh são sócios em uma empresa de informática, e convidaram Atul para conversarmos sobre negócios. Sim, só me permiti fazer uma viagem tão longa e cara porque identifiquei boas possibilidades de negócios a serem exploradas por aqui. Férias e turismo não me atraem por si só.
Mayank voltou para seus afazeres do casamento e saímos eu, Lokesh e Atul com Ram para visitarmos o Nahargarh Fort. O calor ainda era intenso e a paisagem bem seca nesta época do ano, mas a vista da cidade lá de cima era extremamente bela.
Jaipur é uma cidade relativamente grande, com cerca de 3 milhões de habitantes. A parte antiga da cidade foi toda planejada é ainda é bastante organizada. Lá de cima dava pra ver vários dos monumentos famosos da cidade.
Ficamos lá até o anoitecer. O forte hoje é um ponto turístico e possui um pequeno restaurante que funciona a céu aberto. Tirei várias fotos enquanto bebíamos cerveja e conversávamos sobre vários assuntos. Atul é uma pessoa que gosta muito de conhecimento sobre vários assuntos, e possui um pensamento bastante claro, de modo que rapidamente percebi uma identificação intelectual e daí foram vários assuntos filosóficos e culturais. Ele se declara agnóstico, acredita em Deus mas não segue nenhuma religião, e é a única pessoa que encontrei por aqui com essa característica de pensamento, todos os outros são hindus praticantes. Ele que tem me explicado de maneira objetiva vários aspectos acerca da cultura indiana, além de sempre acrescentar um ou outro conhecimento na conversa que esclarece o porque de certas coisas. Percebi também que ele é o cabeça da empresa nas questões de tecnologia, enquanto Lokesh é o comercial/lobby guy. Sempre brinco sobre o assunto com Lokesh, pois ele é da casta Agarwal e o comércio está no sangue dele, embora ele fale que é engenheiro e um homem de tecnologia.
Quando deu 6 da tarde comecei a ouvir uns cânticos ecoarem pela cidade, e perguntei o que era. Eles falaram que eram as mesquitas islâmicas e que todos os mulçumanos rezam àquela hora. Foi um momento muito belo, lá de cima vendo o sol se por, e todos aqueles cânticos ecoando pela cidade em sintonia. Filmei um pouco, mas é o tipo de experiência que só presenciando para sentir.
Voltei relativamente cedo para o hotel, para descansar mais da viagem, porém todos os dias costumo ter insônia a partir das 11 da noite até por volta das 4 da manhã, o corpo ainda se lembra do horário do Brasil.

terça-feira, 18 de maio de 2010

14 de maio - Viagem para Jaipur

Acordei por volta das 9h da manhã e fui à varanda do quarto do hotel. Havia uma linda vista para o vale, com a cadeia de montanhas ao redor. Realmente um lugar privilegiado.
Era a primeira vez que via uma grande porção de verde, pois na planície lá embaixo todas as terras eram cultivadas. Percebi no mapa que estávamos na cadeia de montanhas do Himalaia, próximos da fronteira com o antigo Tibet, atualmente China, ao norte, e algumas poucas centenas a leste encontraríamos o Nepal, o qual Ram comentou que a moeda indiana lá vale muita coisa. Pois é, não existe limite para pobreza.
Já lá embaixo é o vale do Ganges, e  trata-se de uma gigantesca planície, com várias cidades espalhadas, e quase toda área cultivada. Ram comentou que a cidade que víamos lá de cima se chamava Dehradun, e que era uma cidade grande. O último censo de 2001 fala em 450.000 habitantes, mas acredito que já tenha mais de 1 milhão. Entendi então como é possível ter mais de 1 bilhão de pessoas neste país, todos os lugares são muito ocupados, e existem muitas grandes cidades. Delhi é uma cidade de 18 milhões, Mumbai tem mais de 20 milhões, Kalcutá tem por volta de 22 milhões, e daí várias outras com muita, muita gente. Em todo lugar que se passa é muita gente que se vê. Sabem qual é o primeiro impacto? Poluição.
Em todo horizonte que olho por aqui vejo o céu levemente marrom, e lembrei da Grande Nuvem Marrom, uma gigantesca nuvem de poluição que cobre toda a Índia, e daí passei a observar na beira da estrada uns montinhos de bolinhos marrons, e que Ram me confirmou que era esterco de animal para o pessoal cozinhar. Por conta disto muita fuligem é lançada no ar e daí a poluição é algo que cobre todo país.
Saímos para passear por Mussoorie e conhecer a cachoeira. Um lugar muito bonito com uma cachoeira de água gelada cristalina descendo das montanhas. Tirei algumas fotos.
A propósito, estou tirando fotos a ermo, sou péssimo fotógrafo, e também tenho tirado muitas fotos duplicadas para ver qual fica melhor, e muitas de dentro do carro, sem nem pedir pra Ram parar ou diminuir , nem abrir a janela, de modo que meu registro visual está bem meia boca. Tenho feito vários vídeos também, muitos bem quebrados. E sei que não terei tempo para organizar ou publicar nada disto. Peço desculpas aos curiosos, mas me concentro mais em observar do que registrar.
Eis o link para as fotos. Quem quiser ver os vídeos me peça que compartilho o diretório. Ah, desculpem-me também pelo tamanho das fotos. A câmera é de 14 MegaPixels e daí os arquivos ficaram enormes, e agora não terei tempo para diminuir a resolução. Quando fizer isto aviso.
Bem, já estava na hora de voltar para Delhi para seguirmos para Jaipur, e não fiz questão de conhecer mais da cidade. Partimos por volta das 15h, e calculei que chegaríamos em Delhi por volta das 21h. Ledo engano, a viagem de volta foi mais lenta ainda, haviam milhares de caminhões andando a estonteante velocidade de 30Km/h, e chegamos na famosa Connaught Place por volta da meia-noite.
Descemos para irmos a um ATM sacar dinheiro para poder pagar as diárias dos hotéis ao amigo de Ram. Andamos pela praça em frente ao templo dos macacos. O piso da praça era de pedra clara e irradiava um calor intenso, como quando passamos na frente de um forno muito quente. Haviam várias pessoas dormindo pelo chão, e outras andando e conversando, tudo isto à meia-noite.
Sacamos dinheiro no ATM e voltamos para o carro, e eu pensando que no Brasil nunca conseguiria sacar aquela quantia àquela hora, nem me sentiria tranquilo andando pelas ruas daquele jeito. Percebi que aqui, apesar da quantidade de pessoas, não existe violência como estamos acostumados a ver. Tenho pensado sobre o assunto e acredito que isto esteja intimamente relacionado à religião hindu, que é absolutamente presente em todas as pessoas e lugares. Prega-se a vida em comunidade e a tolerância com tudo, além do respeito absoluto pela vida e a idéia poderosa de que esta é apenas uma das vidas de muitas que sua alma pode ter, sendo que se você está em uma situação ruim hoje é porque não seguiu um caminho justo na vida anterior, e deve seguir o caminho da retidão espiritual se quiser melhorar nesta ou na próxima vida. Desta forma não vi nenhuma demonstração ou comentário sobre violência física de nenhuma natureza.
Claro que com tanta gente junta, carente de recursos, como aqui, nada poderia ser tão perfeito. Percebi sim que ocorrem furtos, especialmente nos grandes centros. Mas nada se compara com a violência que agride e mata como costumamos ver no Brasil. No geral o povo aqui é extremamente pacífico, e a polícia exerce seu controle das multidões com um pequeno pedaço de pau, que nem se compara com o peso de um cassetete. Não carregam armas.
Saímos de Delhi em direção a Gurgaon, para encontrarmos com Lokesh. Ram estava bem cansado e percebi que gostaria de dormir para seguirmos no dia seguinte para Jaipur, mas a intenção de Lokesh era irmos imediatamente, e Lokesh não teve como dizer não, além de ser contratado, ele é de uma casta inferior. Voltarei ao assunto depois.
A estrada para Jaipur era bem melhor do que as que tínhamos pegado para o norte, com duas pistas de 4 vias. Mas a quantidade de caminhões era gigantesca, de modo que o tempo de viagem previsto era de 4:30h para 230Km de distância. Nossa velha velocidade de cruzeiro de 50Km/h.
No caminho Lokesh pediu para pararmos em uma loja de bebidas, e comprou cervejas. Lá se foi minha abstinência de álcool, já imaginava. Mas me chamou atenção a tal lojinha, gradeada e iluminada, com as prateleiras repletas de bebidas, e nem uma mesinha pra sentar, nem pessoas bebendo pelas redondezas. Como falei, bebida alcoólica é muito controlada aqui, e Lokesh me falou que aquele vendedor teve que pagar  10 milhões de rúpias (!!!) para o governo pela concessão para uma loja de bebidas. São 400.000 reais num país em que um carro custa 8.000. É quase uma lei seca, e começo a entender porque.
Mas como ia dizendo, a estrada estava lotada de caminhões, e chegou a parar por uns 30 minutos devido a um suposto acidente mais adiante, mas a partir daí seguiu bem.
Chegamos em Jaipur ao amanhecer. Acordei de um cochilo e comecei a notar a cidade no meio de uns morros secos, tudo cor de terra seca, bastante pedregulhoso, com uns fortes no alto dos morros, e muros enormes que seguiam todo topo das colinas, lembrando a muralha da china numa escala bem menor.
Passamos por um grande portal em um estilo parecendo árabe e continuamos pelas ruas da cidade. Poucas pessoas andando nas ruas naquele horário. Um pouco à frente vi um garoto caminhando em cima de um enorme elefante e falei meio abismado, ainda sonolento e em português "Um elefante!". Fiquei impressionado ao passar de carro ao lado daquele animal gigante. Ram comentou que haviam mais de 100 elefantes pela cidade.
Estávamos indo para o hotel, as ruas ainda meio vazias. Vi um garoto meio maltrapilho andando de bicicleta pela rua, alguns cachorros latiam na direção dele e ele foi se afastando mais para o meio da rua. Ram devia estar bem cansado e não deu distância, o garoto foi chegando mais e mais e quando vi estava quase se jogando na frente do carro a dois metros adiante. A única reação que consegui ter foi tapar os olhos com ambas as mãos, soltando de susto em português um "puta que pariu!", enquanto ouvia um baque surdo do carro batendo no garoto.
Ram parou assustado uns 30 metros adiante. Lokesh acordou e perguntou o que foi e Ram respondeu em hindi o que entendi como que o garoto se jogou na frente do carro. Olhei para trás e o garoto estava de pé, segurando a bicicleta, ainda preocupado com os cachorros que latiam pra ele. Ram reclamou do espelho retrovisor que estava quebrado, e seguiu viagem. Fiquei meio sem ação, sem saber se devia pedir para pararmos e irmos lá ver se estava tudo bem com o menino, sem saber se devia agir ou simplesmente observar, e calado permaneci. O garoto não aparentava ter se machucado, mas ainda estou tentando compreender como funcionam os valores e respeito nesta cultura. Sou tratado com uma distinção quase serviçal, mas os de casta baixa são naturalmente desprezados, e aceitam humildemente tal situação.
Chegamos ao hotel, e fui dormir exausto.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

13 de maio - Viagem para Mussoorie

Acordei as 9h da manhã e desci para o breakfast. O atendente me ofereceu algumas opções, mas sem conhecer nada pedi a ele que trouxesse o que ele achasse melhor. Chegou uma tigela de frutas com 3 variedades, incluindo vários pedaços de melancia, que não gosto, mas comi tudo sem pestanejar. E depois o famoso chapati com um molho picante qualquer. Está difícil diferenciar o que é o que nisto tudo. Comi à moda indiana, cortando os pedaços de pão e molhando no tal molho. Não entendi qual foi a diferença em relação ao jantar do dia anterior.
O hotel ficava à baira do Ganges e realmente oferecia uma bela vista para o rio. Acho que este é o maior motivo de ser tão caro a ponto de ser classificado como 4 estrelas. Na parte da frente do pátio estavam construindo uma espécie de grande quiosque, já na fase de colocar o telhado. Havia um homem colocando os tijolos e cimentando a parte central do telhado, e cerca de 4 garotos na faixa dos 12 a 14 anos carregando os tijolos para cima. Já tinha lido que na Índia só é considerado trabalho infantil abaixo dos 12 anos de idade, mas ver os meninos trabalhando foi bem estranho, me lembrou os tempos de antes, quando eu era menino, em que trabalhar com 12 anos ou mais era comum, e eu mesmo comecei a trabalhar com 13. Mas de qualquer forma foi uma visão incomum para mim.
Arrumei as malas, fiz check-out no hotel, e saímos para conhecer a região. Ram me apontou uma viela onde as pessoas estavam descendo pra ir ao rio, e ficou no carro esperando. Desci pelo caminho estreito cercado de lojas de souvenirs e fui seguindo o fluxo. Um pouco mais abaixo vi as pessoas entrando em um lugar, e percebi que era um templo. Entrei também pra conhecer.
Já adianto que não estou tirando fotos dentro dos templos. Considero deselegante tirar fotos das pessoas que estão rezando ou cultuando, ou do espaço dos templos. Enxergo como um local sagrado, e ficar lá com câmera em punho feito um bisbilhoteiro me parece muito ofensivo. Tiro os sapatos como todo mundo e entro nos templos como puro observador, apenas olhando tudo sem nada julgar, na postura de total respeito pela crença alheia. Quem quiser conhecer um desses templos por dentro terá que vir aqui ver com os próprios olhos.
Continuei andando e cheguei em uma ponte pênsil para pedestres que atravessava o rio. Eu falei pedestres? Bem, além da centena de pessoas vamos incluir motos e vacas na história. Fiz um filme na câmera para mostrar aquela coisa inusitada de estar em uma ponte cheia de gente com motos buzinando para passar pelo meio. Até agora não consegui entender se os indianos são muito educados para convivência em comunidade, ou são totalmente sem educação e respeito pelo espaço do outro. Minhas convicções ocidentais são muito limitadas para poder decidir sobre o assunto.
Do outro lado havia dois grandes prédios muito bonitos, coloridos e curiosos, que percebi serem centros de ensino e prática de meditação. Vi depois que Rishikesh é um dos maiores centros da Índia para prática de Yoga. Sei de uma galera que daria de tudo pra conhecer aqueles centros, e lá estava eu somente tirando fotos do lado de fora. É a vida.
Saindo de lá pegamos novamente a estrada para irmos para Haridwar. A cidade estava cheia de peregrinos que vão lá pra se banhar no Ganga. Ram falou que era outro rio, mas confirmei depois que era o próprio Ganges que tínhamos visto lá em Rishikesh e lá em Haridwar. O rio é bem extenso, com muitas pessoas se banhando nas margens. Não vou comentar sobre a quantidade infinita de moscas, mas apenas nas pessoas que estavam deitadas no chão dormindo nas margens do rio, além de algumas que estavam rezando ou comendo por ali. No meio do rio, eu uma ilha, havia uma espécie de templo com uma estátua gigantesca de Vishnu, o deus hindu de manutenção do mundo. Para aqueles que não conhecem existe Bhramin, que é o princípio pleno de todas as coisas, e dele derivam 3 deuses, Brama, Vishnu e Shiva, compondo a trimurti. Não adianta explicar os detalhes destra trindade por que em cada lugar que pesquiso encontro uma descrição diferente. Esta é uma característica que já observei, cada um explica os deuses como melhor entende, e cada um acredita da forma que mais convém. E no final das contas não há muita discussão, pois ninguém e todos estão certos. É realmente uma forma muito diferente de lidar com a "verdade".
Seguimos para uma outra parte do rio onde havia um espaço para as pessoas se banharem. Vale notar aqui que havia uma espécie de grade há 3 metros da margem para que as pessoas evitem ir para as partes mais fundas e se afoguem. A correnteza no rio é considerável.
Fui com Ram até a margem e acabei me motivando a tirar os sapatos e me molhar no rio, os pés, as mãos, e a cabeça. Meu olfato é confiável e percebi que o rio não era sujo, embora tivesse as águas turvas. Naquele ponto ali não era aquela coisa poluída que costuma-se ver na televisão.
Ram hesitou um pouco, mas depois se animou e tirou a roupa e entrou na água pra se banhar, de cuecas (grandes) como todos os outros homens. A água era bem gelada e ele falou que era bom pra saúde. Havia algumas poucas mulheres se banhando, mas absolutamente vestidas dos pés à cabeça. Fiquei ali olhando o povo se banhar mas sem disposição pra entrar. Depois fiquei pensando que poderia ter deixado de frescura e aproveitado a oportunidade para me banhar e contar pra todo mundo que já purifiquei minha alma no famoso Ganges. Quem sabe não conseguia lavar alguns dos meus pecados, uns dois que fossem já ajudava.
Dali seguimos de carro para Mussoorie, que é uma cidade a 2.000 metros de altitude, já próxima da fronteira com o antigo Tibet.
Chegamos lá relativamente cedo. A cidade era pequena com uma série de lugares remetendo a missões cristãs, devido à fundação recente pelos britânicos, e havia um grande número de tibetanos, todos sósias perfeitas do Dalai Lama, próximos em alguns templos da região.
A temperatura lá já era bem mais baixa, chegando mesmo a fazer algum frio. Procuramos um pouco e chegamos a um hotel que o tal amigo de Ram havia reservado para mim, desta vez um de 3 estrelas. Fiquei um pouco receoso por conta da experiência do que 4 estrelas, mas desta vez finalmente fiquei em um hotel bem decente, 3 estrelas bem classificadas.
Mussoorie é uma cidade encrustrada no meio da parte mais baixa do Himalaia, espalhada em poucos lugares relativamente planos no meio da montanha. A estrada para se chegar lá era daquele tipo que sobre contornando a montanha, com aquelas curvas de 360 graus que dá pra se ver a placa de trásdo carro. O hotel se localizava à beira da estrada incrustado na montanha, e a varanda do quarto tinha uma belíssima vista para o vale sem fim onde se encontravam várias cidades. Sim, ali era um lugar privilegiado, e encontrei a inspiração para começar a escrever o imaginado blog.

domingo, 16 de maio de 2010

12 de Maio - Viagem para Rishikesh

Acordei no meio da madrugada sem sono algum. Este negócio de jet-lag é mesmo sério. Como já me conheço, nem tentei pegar no sono novamente, pois não iria conseguir. Ao invés disto aproveitei para acessar meus e-mails e ver como estavam as coisas do outro lado do mundo.
Como ainda estava sem notebook o jeito foi acessar pelo iPhone mesmo. Pra mim que chego a receber mais de 300 e-mails por dia, acessar pela tela do iPhone a 64Kbps é um processo, responder e-mails pior ainda, mas era a única forma.
Li todos os e-mails, respondi alguns poucos, e fiquei me sentindo bem por ver que tudo na empresa estava caminhando bem sem mim. Por vezes sinto que as pessoas da empresa dependem muito de mim pra tudo, e chego até a acreditar que sou mesmo assim importante, mas eu sei que todas as pessoas são muito competentes e conseguem resolver quase tudo sozinhas, e não é a primeira vez que vejo tudo caminhar bem na minha ausência. Já senti esta sensação algumas vezes, como por exemplo quando estava na escola diante de um professor que respeitava pelo conhecimento. Não me sentia seguro pra resolver as questões e sempre recorria a ele. Mas depois, quando estava diante de questões semelhantes e não mais era seu aluno eu resolvia tudo com segurança e correção. Pensarei mais sobre este assunto.
Acabei não dormindo, e comecei a me preparar pra sair por volta das 9h. Mayank me ligou contando que a Lufthansa tinha informado a ele que minha mala já tinha chegado e que iriam levar na pousada. Finalmente uma boa notícia! Como o plano era viajar para Rishikesh, decidi passar no aeroporto para pegar a mala diretamente, pois não pretendia voltar pra tal guesthouse.
A mala estava meio surrada, resolvi abrir no aeroporto mesmo só pra confirmar o que eu já esperava, tinha comprado uma pequena escultura de uma baiana em cerâmica no aeroporto de Salvador para trazer de presente pra Mayank, mas claro que a mesma tinha se despedaçado. É... da próxima vez terei que embalar com mais cuidado... Mantive-me na filosofia de não reclamar o que já estava perdido.
Almoçamos na lanchonete do aeroporto sob um calor de 40 graus. Aliás, almoçamos não, pois eram ainda 10:30h e este é o horário que o povo faz o breakfast por aqui, indo almoçar depois das 13h, e jantar por volta das 21h. O horário é bem diferente do nosso, e acho que é por conta do sol, que reina por aqui. Falei pra Ram escolher qualquer coisa indiana vegetariana, e ele pediu uns molhos picantes com chapati (o tal do pão árabe oleoso bem fino e assado na chapa). Lá estava eu de novo rasgando o pão e com a mão e segurando os pedaços com os dedos tentava com dificuldade pegar os pedaços de coisas dentro daquele molho vermelho, para depois levar à boca aquela mistura extremamente picante, isto tudo em um salão sem janelas, com um calor seco de mais de 40 graus, sem ar-condicionado ou ventilador, cercado de moscas. É... a gente não pode emitir opinião antes de conhecer, né? Aliás, baixando aqui um espírito Poliana, até que é bom este negócio picante, assim eu não sinto o sabor das verduras, que eu definitivamente não gosto, e daí posso comer qualquer coisa, já que o sabor é sempre o mesmo...
A missão agora era comprar o notebook, e quem sabe um brinquedinho... Passamos em um shopping center onde tinha uma loja da Sony, mas tinha muito poucas opções, e então Ram sugeriu irmos para Connaught Place, pois lá se encontra de tudo (como eu havia imaginado, um centro comercial). Saímos na rua e a irradiação de calor era ainda pior do que no aeroporto. É como estar dentro de um forno a gás, um calor seco que te queima. A gente praticamente não sua, porque o ar seco te queima sem que você sue muito, é diferente do calor de Salvador, onde a gente sua feito um cuzcuz.
Entramos nas galerias embaixo da Connaught Place para ver se lá tinha o que procurava. Lembrei-me das Galerias Pajé, na 25 de março em São Paulo, só que vendendo de tudo mais e naquele calor infernal. Realmente uma experiência para pessoas resistentes.
Não tinha nada de eletrônico de qualidade por lá, mas achei o meu desejado Play Station 3. O preço não estava muito inferior ao da loja, mas o vendedor sikh (aqueles que usam turbante na cabeça) acabou me convencendo. Depois que paguei fiquei com a sensação de que tinha me metido numa roubada, pois a diferença de preço compensava ter comprado em uma loja. Contudo, testei e estava tudo em ordem, o único problema é que foi sem nota, o que pode me causar algum problema na alfândega.
Saímos das galerias e andamos um monte pelas ruas empoeiradas em obras. Delhi irá sediar os Commonwealth Games este ano e por conta disto estão arrumando tudo na cidade, inclusive construindo um metrô, que promete melhorar muito o caótico trânsito da cidade, já que o transporte público consiste atualmente em ônibus de 1960 e tuk-tuks com motor de bicicleta, e nem preciso falar que ambos só andam com pessoas saindo pelas janelas. Mas como eu ia dizendo, a Connaught Place está uma poeira só.
Aliás, poeira, fuligem, placas pra todo lado, buzinas constantemente, e tudo mais sujo e fedorento, fazem de Delhi o lugar mais poluído que já conheci na vida, faz o centro de São Paulo parecer um templo budista nas montanhas.
Voltando, andamos um tanto e chegamos a uma loja da Sony, e lá comprei meu pequenino novo notebook. Ainda estou me acostumando com o teclado minúsculo do bichinho, toda hora erro o shift e não sai o espaço, e o processamento é bem aquém das necessidades de um hard-user como eu, mas a portabilidade é muito boa, vamos ver se consigo me adaptar.
Já eram 15h quando pegamos a estrada para ir para Rishikesh. Aliás, estrada não é adequado para descrever o caminho que pegamos. Curiosamente o asfalto é bom, e não vi nenhum buraco no caminho, mas em compensação existe tudo de imaginável pelo caminho, os tuk-tuks lotados que andam a 30Km/h, pessoas, carroças de cavalo, bois ou búfalos, ônibus centenários, e caminhões que não dá pra descrever, só digo que atrás dos caminhões tem a placa informando que eles trafegam à velocidade máxima de 40Km/h e sempre pintado em letras vermelhas Horn Please. Em outras palavras, não era estrada, mas sim uma interminável avenida, reta, plana, e constantemente cheia de gente por todo o caminho, como se fosse uma única grande cidade. Resultado: 230Km percorridos em 8 intermináveis horas.
Chegamos no hotel que Ram arranjou com um amigo pra mim por volta da meia noite, eu prá lá de cansado, já perto daquele estado que começo a ficar irritado com tudo e achar que tudo é uma merda. Controlei meu temperamento pois se que se isto se instalasse eu iria querer voltar pra casa no dia seguinte, e efetivamente voltaria. Pensei só em descansar bastante pois há muito o que conhecer ainda.
O hotel ficava numa encosta íngreme com vista total para o rio Ganges, e possui o potentoso nome de Ganga Beach Resort. O amigo de Ram tinha nos dito que era 4 estrelas, mas quando cheguei na recepção fiquei com a sensação de que era 3 estrelas, e quando subi pro quarto confirmei que eram 2 estrelas com boa vontade. Tudo bem, só precisava dormir bastante mesmo.
Mas claro que antes de dormir formatei e instalei meu novo notebook e testei alguns joguinhos no meu novo videogame. O estress passou.   =D

11 de maio – Chegada em Delhi

O aeroporto de Delhi inicialmente me lembrou o Galeão do Rio de Janeiro, mas depois se mostrou ser ainda mais decadente. Tinha um formulário enorme para ser preenchido e obviamente eu não tinha uma caneta. Será difícil, mas vou tentar lembrar de trazer uma na próxima viagem. Para entrar no Brasil preenche-se um formulário semelhante. Burocrata adora formulários, havia preenchido um maior ainda pra tirar o visto pra Índia. Fiquei pensando se alguém se dá o trabalho de digitar aquilo em um sistema de controle de imigração, mas acho bem difícil, aquilo deve ir pra uma pasta pra alimentar fungos e traças por anos afio. Passei pela polícia de fronteira que me fez várias perguntas, inclusive o nome completo e telefone do meu amigo indiano já que eu não sabia o endereço onde iria ficar. É, um país com uma população de 1,12 milhão de habitantes e crescendo, cercado de países mais pobres ainda, precisa se preocupar com imigração...
Fui lá pra esteira de bagagem esperar pela minha mas meio que já antevendo que não chegaria. Dito  e certo, os alemães não conseguiram ser tão eficientes assim. Fiquei esperando na fila pra falar com um funcionário da companhia, atrás de outros passageiros que também não haviam recebidos suas malas. A mulher da minha frente estava reclamando um monte com o funcionário, e ele pedindo várias desculpas. Segui o protocolo de reclamação sem demonstrar consternação, cansado que estava e já imaginando que aconteceria mesmo, além de saber que nessas horas não adianta perder muito tempo reclamando com um funcionário de atendimento ao público.
Vi a mulher da minha frente receber 6.000 rúpias, e achei que seria uma indenização ridícula pela perda da mala. Na minha vez o rapaz me trouxe 4.000 rúpias. Falei pra ele que aquilo não era nem 10% do valor de minha bagagem, mas ele falou que era só uma compensação que a companhia oferecia pelo transtorno, e que a bagagem chegaria lá posteriormente e eles me ligariam pra me entregar. É... preciso aprender a reclamar mais, e daí quem saiba receba compensações melhores pelos transtornos.
Saí para área de desembarque e achei que estava bem vazia, uma área pequena, algumas poucas lanchonetes, e algumas poucas pessoas esperando passageiros com placas de nome. Procurei uma com meu nome, pois Mayank havia me dito que mandaria o amigo dele me buscar, mas não achei. Liguei pra Mayank e ele me confirmou que o amigo dele estava lá, e me passou o número. Quando liguei para Lokesh, o amigo, ele falou que estava lá na saída.
Falando assim parece que foi uma comunicação fácil, mas foi o momento que comecei a ver que eu teria muitas dificuldades de comunicação na Índia. Se você perguntar a um indiano eles dirão que os indianos falam muito bem o inglês, mas para mim que falo mal inglês, entendê-los é quase impossível, pois o sotaque é super estranho. Achava que o inglês era quase língua oficial na Índia, mas não, eles falam mesmo hindi, com uma ou outra palavra moderna em inglês no meio, e com entonações próprias e um `r` bastante puxado. Na maior parte das vezes quando falam comigo eu simplesmente balanço a cabeça afirmativamente e sorrio, mas quando é uma pergunta sou obrigado a dizer que não entendi e pedir a pessoa pra repetir.
Mas voltando ao aeroporto, vi uma porta pequena escrito saída, e saí por ali procurando o tal Lokesh com a placa, e daí entendi que o salão do desembarque estava vazio porque a polícia não deixa as pessoas entrarem, só se pagarem pela entrada, que custa a fortuna de Rs 80,00. Em resumo, havia uma multidão de pessoas do lado de fora do aeroporto esperando os passageiros, povo descalço ou com aparência pobre, um calor infernal, uma barulheira insana, todo mundo falando ao mesmo tempo, um policial com uma vareta reclamando com o povo pra se manter atrás da grade de contenção, e moscas pra todo lado. Estou na Índia!
Pedi ajuda a um policial idoso com um turbante vermelho na cabeça pra orientar ao meu cicerone onde eu estava, e consegui por fim encontrar com Lokesh.
Se ele tivesse me dito que era baiano mas que tinha ido pra Índia pequeno eu acreditaria. Todo mundo por aqui poderia se passar por um baiano, assim como muita gente aqui achou que eu era indiano, exceto pela roupa um pouco diferente. Lokesh é um moreno claro, cabelo liso, e estava vestido com uma camiseta, jeans e um chinelo. Baiano típico.
Entramos no táxi e ele deu as instruções para o choffer em uma língua ininteligível. Depois me perguntou algo em um inglês ininteligível. E daí fomos seguindo num entendimento precário até o hotel em Gurgaon. Ele havia ido me esperar no dia anterior, e havia tentado me ligar no celular sem sucesso. Pedi desculpas a ele, eu não sabia que Mayank iria mandar alguém me esperar, e só avisei a ele que o voo havia sido cancelado quando consegui marcar o voo no dia seguinte.
Fui andando no táxi achando Delhi uma cidade moderna, mas estranhando aquele dirigir do lado direito do carro, e aquela confusão no trânsito com todo mundo andando como se não houvessem faixas e buzinando sem parar. No pedágio a fila andava rápido, e quando observei vi o rapaz do guichê pegando alucinadamente o dinheiro dos motoristas e entregando o papel e o troco e liberando a cancela. Queria que os funcionários dos guichês da Linha Verde vissem aquilo.
Fomos seguindo para Gurgaon e fui vendo prédios muito bonitos e modernos. Lokesh me explicou que Gurgaon é uma cidade ao sul de New Delhi, onde ficam as sedes de todas as empresas de tecnologia multinacionais e nacionais instaladas por lá. IBM, Accenture, Yahoo, Google, Dell, Panasonic, tinha de tudo por lá. Tudo por conta da mão de obra vasta e barata para o desenvolvimento de software. Este é um dos grandes motivos desta minha visita à Índia, um workaholic nunca tira férias, ele expande seu networking em novos horizontes.
Saímos da estrada principal e já caímos em umas ruas estreitas até umas de barro. Lá ficava a Guesthouse da minha primeira noite, um tipo de pousada. Lokesh me explicou que hotel em Gurgaon é muito caro, e por isto haviam reservado esta pousada pra mim. Lembrei-me de quando fiquei em um hotel de rodoviária em Fortaleza, em 2000, no meu primeiro projeto na Telemar antes de fundar a ITIn. O quarto mais barato era pior do que qualquer pousada que eu tenha ficado desde então, e ainda assim era melhor do que este da guesthouse, ainda mais com a impressão estranha de ver funcionários dormindo no chão do hall de passagem as 3h da tarde, com aquele cheiro típico de pessoas que suam muito mas nunca usam sabonete nem desodorante e pouco se banham. Bem, lá já estava e lá dormiria.
Após 3 horas de sono Lokesh apareceu acompanhado por Ram, meu choffer e guia pelos próximos dias. Já tinham de avisado que aqui na Índia é muito barato contratar um carro com choffer para te levar para os lugares, mas tendo sido Mayank a providenciar foi melhor ainda, pois ele montou um roteiro com algumas cidades e locais para Ram me levar e ficar disponível para o que eu desejasse fazer 24h. Está aí uma comodidade que não imaginaria encontrar em outro lugar, não pelo preço que se paga aqui. Mas estou percebendo que a relação do indiano com a vida, trabalho e dinheiro é bastante peculiar, voltarei ainda a este assunto.
Ram supostamente fala inglês, mas ele sempre mistura um hindi pelo meio, e não tem muito vocabulário, de forma que a gente vai se entendendo aos poucos. Ele me levou pra conhecer New Delhi, ou a parte nova de Delhi, arquitetada pelos ingleses logo antes da independência para se tornar a nova capital. Fomos direto para a Cornaugh Place, uma grande praça redonda com vias saindo ortogonalmente em várias direções. Pareceu-me uma espécie de centro comercial de New Delhi, com várias ruas com lojas ao redor, muitas delas de marcas extrangeiras.


O trânsito
O trânsito é algo insano, inicialmente você não entende como é que não ocorre um acidente a cada 10 segundos em sua frente. São caminhões, ônibus, carros, motos, pessoas e tuk-tuks (um táxi que é metade da largura de um carro com 2 rodas atrás e 1 na frente), tudo misturado num balaio de gato que te deixa zonzo. Estou com o pé dolorido de tanto pisar no pedal de freio imaginário em minha frente, e várias vezes já falei de susto “bateu”, em português é claro.
Os motoristas buzinam sem parar, buzinam por qualquer coisa, para acelerar quem está na frente, pra reclamar, pra avisar que estão ali, e na grande parte das vezes buzinam pra avisar que estão passando.
Os pedestres atravessam, meio que olhando, meio que sem olhar, botando a mão dizendo pra você diminuir.
Os carros entram nas vias malmente olhando pra ver se vem alguém, ele simplesmente vai buzinando e entrando, não espera uma hora livre pra entrar, e os carros que vêm na via simplesmente diminuem e seguem atrás.
Aliás, já vi Ram bater de leve em um tuk-tuk na frente, e o que aconteceu? Nada, nem os passageiros que estavam sentados no banco de trás se deram o trabalho de olhar pra ver a cara de Ram. Por isto todos os carros têm pequenas mossas/amassados, e ninguém está nem aí pra consertar.
Inclusive, diga-se de passagem, em nenhum momento vi ninguém xingar outro no trânsito, as poucas vezes foram reclamações bem educadas. É impressionante.
Sabe qual é o grande truque disto tudo? A velocidade. Dificilmente a velocidade nas ruas passa de 40Km/h, no meio da craude a velocidade varia em torno de 20Km/h, e nas grandes avenidas roda-se a 60Km/h. A esta velocidade qualquer incidente pode ser contornado e nenhum acidente se torna grave. E antes que se pense que nesta lerdeza não se chega a nenhum lugar vou dizer que não vi o trânsito parar em nenhum momento. É uma grande confusão que constantemente flui, raramente existe semáforo, e andamos distâncias maiores do que 20Km sem nunca termos demorado mais do que 40min. Isto numa cidade maior do que São Paulo.
Não que eu ache que nosso trânsito devesse ser zoneado desse jeito, mas estou cada vez mais convencido de que a maior parte dos semáforos mais atrapalha do que ajuda o trânsito, que o hábito de dar passagem faz o trânsito como um todo melhorar muito, reduzindo o tempo de viagem, e que velocidade acima de 60Km/h é o maior ofensor para os acidentes automobilísticos.
Uma boa analogia sobre como funciona o trânsito por aqui é olhar para como andamos em uma multidão em uma rua de comércio, um shopping lotado ou uma estação de ônibus ou metrô na hora do rush, isto numa densidade em que ainda conseguimos andar sem estarmos espremidos. A gente anda no meio de todos e pouco nos chocamos com as outras pessoas, são muitas pessoas mas não chegamos a parar para esperar, o fluxo é contínuo em grande parte do tempo, e sempre deixamos as pessoas passarem em nossa frente mantendo sempre uma distância mínima de todos ao redor. O povo aqui está muito acostumado a andar em multidão de forma civilizada, e agem da mesma forma no trânsito. Estou impressionado.
Mas voltando ao relato do dia, estava com fome e Ram me levou a um McDonalds, ele deve ter imaginado que seria o que eu mais gostava. Não quis nesta primeira refeição partir logo pra comida indiana, e daí aceitei a sugestão do Mac. O único sanduíche que tinha com proteína animal era o McChicken, e foi este mesmo, o resto eram opções vegetarianas.
Minha primeira missão era comprar um chip local, para poder fazer e receber chamadas do povo aqui, de preferência com pacote de dados. Andamos no meio ao calor infernal, com uma poeira poluída, e por ruas sujas e fedorentas, consegui comprar um chip, mas lá não fazia a carga (???), saímos por mais ruas de terra com cheiro de esgoto para achar uma loja subindo uma escada de 50cm de largura para chegar em um cubículo de 3 m² e pé direito de 1,9m (nem era quente e abafado), e lá o cara fazia recarga. Ram interagiu com o vendedor sem que eu entendesse uma palavra, e daí me falou o valor, que também não entendi quanto seria. Mostrei o dinheiro a ele e ele pegou a quantia necessária. Ao todo o chip pré-pago com direito a 300 minutos e pacote de dados ilimitado saiu pela incrível quantia de Rs 520, equivalente a R$ 21,00. As operadoras no Brasil nos exploram descaradamente.
A segunda missão foi comprar roupas, já que minha mala ainda não havia aparecido e a muda de roupa que havia levado já estava bem suada. Entrei numa loja da Lee, já que não era o momento de ficar procurando muito algo indiano que agradasse. Escolhi três camisas de botão bonitas (quadriculadas estão na moda aqui e ainda vão me servir pro São João) e uma calça jeans, e Ram aproveitou o brinde a ele concedido, por ser motorista de turismo e ter me levado na loja, e levou uma camisa pra ele também. Esta compra saiu muito caro, pois é marca importada, custou a extravagância de Rs 5.700, ou R$ 220,00, menos de metade do que seria no Brasil.


Álcool
Depois Ram me perguntou se eu bebia álcool, falei que sim e ele disse que gostava de vinho, e que na Índia tem bons vinhos, ainda que um pouco diferentes (imaginei). Percebi que ele gostava da cachacinha mas por questões culturais não podia revelar o quanto, falei que gostava de vinho, cerveja e wisky, e daí ele me levou numa casa de bebidas para comprarmos algo, pois em outros lugares não acharíamos.
Já tinha lido que o consumo de bebidas alcoólicas é restrito na Índia. A maior parte dos restaurantes hindus não vendem, em algumas cidades chega a ser proibido o comércio de álcool, especialmente destilados. Parece que só recentemente que o consumo passou a ser liberado de forma moderada, e começou-se também a produzir destilados nacionais. Tudo por conta da religião hindu, que considera a bebida alcoólica como danosa pro corpo e espírito. De forma que as lojas de bebidas aqui parecem com uma distribuidora de bebidas do Brasil, mas sem as caixas de cerveja, somente os litros de destilados.
Ram pediu uma garrafa lá de uma marca local mas expliquei a ele que só bebo scoth, de preferência Jonny Walker Red Label (depois de muitos porres na vida a gente aprende a dar valor à marca boa), o rapaz respondeu que não tinha, perguntei então por Chivas, ele tinha 12 anos a Rs 3.000, fiz as contas, 120 reais, um pouco mais caro do que no Brasil, vai este mesmo. Ram ficou abismado, uma garrafa de bebida que custa 3.000 rúpias é algo que ele nunca imaginou tocar na boca. Saiu andando com a garrafa na mão falando que carregava uma bebida que valia o salário dele de um mês. Não quis comentar que já paguei 3 vezes aquele valor numa garrafa que tomei em uma sentada. Já estava me sentindo pra lá de burguês ostentador, e me envergonhei de não ter comprado uma marca local.
À noite Lokesh apareceu e fomos jantar. Ele não entendeu nada quando apareci com a garrafa de wisky, ele falou que não bebia e percebi que Ram não quis se expor, daí eu falei que gostava, e ele então se prontificou a me levar em um lugar onde deixavam você entrar com sua garrafa para comer e beber lá dentro.
No caminho falei que eu ainda precisava comprar um notebook. O que?! Alex viajou sem levar o notebook?!?! Isto mesmo. Vi que os preços aqui eram bem mais baratos que no Brasil, por conta dos impostos menores e proximidade com a China, e daí resolvi deixar pra comprar um novo pra mim aqui. Movi todos meu arquivos para a internet, fiz backup em pen-drive, e viajei tranquilo. Cada vez mais minha vida está on-line e menos dependente de qualquer máquina em particular.
As lojas dos shoppings já estavam fechadas as 21h. É uma cidade grande mas com baixo poder aquisitivo, além de ter uma cultura pouco consumista e muito caseira. Levará um bom tempo ainda até que o capitalismo consumista domine por aqui.
Fomos a um restaurante indiano típico, a pedido meu, chamado Machan. Espaço a céu aberto, uma bandinha tocando musica indiana no fundo, um espaço reservado só para casais, e comida típica indiana. Praticamente não havia mulheres no local, e o espaço para casais tinha somente um ou dois casais de namorados. Lokesh me explicou que as mulheres indianas ficam em casa em geral, e saem só com os maridos, além de não existir este costume nosso de sair pra jantar ou se divertir. A vida das pessoas é centrada muito na família.
Pedimos copos ao garçon e abrimos o wisky. Começamos a tomar eu, puro como sempre, e Ram, misturado com gelo e água pois é muito forte pra ele, Lokesh não é de bebida e ficou na água. Como disse, a cultura hindu reprime o consumo de álcool e outras drogas, e além de sugerir o vegetarianismo reprime o consumo de cebola e alho, pois são comidas que esquentam o sangue (estimulantes). Ele e Ram são vegetarianos.
Lokesh acendeu um cigarro e começou a explicar que toda cultura indiana é centrada na família. Ele mora com os pais, e assim são a maioria das casas. Quando Mayank se casar a esposa dele irá morar com ele na casa dos pais dele. Ele demonstrou achar estranho eu morar sozinho, e quando contei que já casei e separei 3 vezes ele argumentou que este hábito de morar todos juntos na mesma família ajuda muito ao casal superar as dificuldades e diferenças, pois se ele ou a esposa começarem a ter problemas os pais irão conversar com cada um, ouvir, orientar e apoiar no que for necessário para que o casal supere as crises e continuem juntos.
Achei a imagem bem bonita, especialmente quando vemos no mundo moderno os casais cada vez se separando mais, e muitas pessoas ficando sozinhas porque não conseguem achar (leia-se decidir por) alguém com quem possam viver juntos, pois com os mínimos problemas que ocorrem já veem como solução mais simples a separação. Mas comentei com ele que no Brasil isto seria bem difícil, pois por um lado a mulher e a sogra costumam muito entrar em conflito brigando pela atenção/controle do homem, e por outro os pais frequentemente entram em conflito com os avós discordando severamente sobre a criação das crianças –o que para mim significa que ele discordam da própria criação que tiveram. Concluí que só com um aparato cultural e religião fortes é que se torna possível viver assim em comunidade, e que no Brasil as pessoas estão longe de ter esta maturidade.

Primeira Refeição
Daí chegou a comida tipicamente indiana, e Lokesh começou a me explicar o que eram as coisas, e me mostrar como se comia. Desde já adianto que a comida indiana é fundamentalmente apimentada, com muita pimenta do reino especialmente, e alguns outros vários condimentos. Pedi a ele que demandasse somente comida vegetariana, eu não sou de comer vegetais, nem gosto, mas vim aqui pra conhecer, e o desejo de conhecimento é mais forte do que os hábitos. Inicialmente veio uma espécie de tofú com tempero, que pegávamos com palitos. Depois veio pratos mais típicos, do pão deles, semelhante ao árabe, mas mais fino e gorduroso, com mais algumas tigelas com molhos. Até o fim da viagem conseguirei decorar os nomes. Come-se de mão, somente com a mão direita, pode-se usar a esquerda para ajudar a partir o pão ou pegar um copo, mas observei que eles usam somente a direita e deixam a mão esquerda sem função alguma. A gente inevitavelmente suja os dedos, e em todo lugar existe uma pia por perto para lavar as mãos. Na verdade a regra é que a mão esquerda é a utilizada para toilete, e portanto é impura, e acho que sabão não é lá muito utilizado por aqui, pois só vi nos hotéis. Daí a questão da toilete com a esquerda fazer sentido. Vou ver se consigo usar a mão esquerda da próxima vez que for ao banheiro, mas com papel, é claro.
Neste ponto me ocorreu que eu venho tomando consciência do meu vício em álcool, café e gordura animal, a ponto de não passar um dia sequer sem consumir, e daí me ocorreu que eu poderia aproveitar este período para experimentar os efeitos da abstinência, e daí saber a dimensão do meu vício. Decidi e falei pra Lokesh que passarei todos esses dias aqui me alimentando somente de comida vegetariana e sem beber álcool e café. Ele e Ram acharam estranho e não entenderam bem porque, mas falaram que esperam poder tomarmos umas cachacinhas quando formos sair pras festas em Jaipur, cidade onde eles moram.
Neste ponto Lokesh falou que ele tinha uma teoria sobre o problema dos relacionamentos no mundo ocidental. Na opinião dele a culpa maior é do álcool pois quando os homens bebem eles tendem a falar as coisas sem pensar, no calor do momento, e isto seria a maior causa das separações.
Eu até concordo que o álcool é uma droga que abala sim relacionamentos em vários aspectos, mas respondi a ele que na minha visão este não era o maior problema, mas sim o individualismo exacerbado da cultura ocidental. Do lado de lá do mundo a cultura do capitalismo e individualismo estimula as pessoas a serem totalmente independentes e auto-suficientes. As pessoas trabalham, investem muito em sua carreira profissional, ganham bastante dinheiro e podem fazer ou comprar o que desejarem. Associado a isto surge a ilusão de que somos todos poderosos, auto-suficientes, sem depender de ninguém pra viver ou ser feliz, e daí não aceitamos nunca abrir mão dos nossos ideais e objetivos, do nosso modo de vida, para deixar que o outro participe ou participar do mundo do outro, e com isto vamos nos tornando cada vez mais solitários, um fenômeno que cresce a cada dia no mundo ocidental, especialmente na Europa, e grandes cidades da América. Ele concordou comigo no raciocínio, mas não sei se ele tem a real medida de como o ocidental se sente auto-suficiente.
Depois fomos para a pousada. Estava bem cansado com o dia, e dormi rápido, mas acabei acordando no meio da noite. É, o jet-lag é complicado mesmo. Fiquei impressionado como o corpo é sincronizado com o ciclo diário. Para muitas pessoas isto é óbvio, pois possuem um ciclo totalmente regular, mas eu não, sou irregular por natureza, sem hora pra dormir, acordar, comer, etc. Porém, estou vendo que não sou tão irregular assim como pensava.

08/09/10 de maio – A viagem de ida

O avião partiu pontualmente de Guarulhos as 16:30h. A passagem comprada em classe econômica para 18 horas de viagem antecipava uma viagem cansativa, mas o Airbus 340 da Lufthansa surpreendeu com o conforto da poltrona, o bom espaço para as pernas, um conjunto com travesseiro, manta e headphones, e um monitor individual. Pra não falar na gentileza e atenção da tripulação, e o serviço de bordo mais completo que já conheci. Foi um pouco mais caro do que em outras companhias, mas valeu a pena.
A leve ansiedade foi suficiente para me tirar o sono, li revistas, livros, um jornal em alemão para relembrar (não entendi nada!), assisti o filme de Sherlock Holmes em inglês sem legendas (não entendi quase nada!) e só dormi nas duas últimas horas de vôo, quando no Brasil seria entre 2 e 4 da manhã, contudo, em Munique já eram 9:00 e a tripulação começou a servir o café da manhã e preparar para o pouso.
Desci no aeroporto ainda com sono e os olhos ardendo. Tinha me informado sobre o tempo em Delhi, 40 graus Celsius com humidade, me preparei para encontrar um clima semelhante a Manaus e me lembrar de como é viver em uma sauna, mas a correria não me deixou lembrar como estaria em Munique, o jornal trazia a previsão de 5 graus, e eu não tinha trazido nada para o frio. Primeira missão: comprar uma jaqueta!
O terminal 2 do aeroporto de Munique é super moderno. Muito novo, bonito e bem equipado. Lembrei-me que a última copa do mundo foi na Alemanha o que deve ter motivado a reforma. Haviam várias lojas Duty-Free com uma variedade enorme de produtos, e bons restaurantes e lanchonetes. Comprei uma jaqueta bonita, sendo em euros foi naturalmente cara, mas vai me servir por muito tempo. Aproveitei também para comprar uma câmera fotográfica – sim, eu não tinha uma, não sou de tirar fotos.
Domingo ensolarado, 8 horas de espera até o voo para Delhi, perfeito para dar uma volta por Munique. Passei pela imigração sem maiores problemas. Já tinha ouvido falar que a Alemanha era tranquila para entrar.
Saí do terminal para uma área central aberta entre os terminais. Um vento gelado cortante me fez desenvolver imediatamente um apego emocional à minha nova jaqueta. Ao redor propagandas de carros elegantes e uma partida infantil de futebol em uma quadra de gramado sintético improvisada com perfeição. Fui seguindo as placas em direção ao “bahn” (sabia que aquele curso de alemão um dia ainda iria me servir pra alguma coisa!). Comprei a passagem válida para todo o dia em um terminal automático. A máquina só aceitava notas baixas, e eu só tinha de 50 euros, mas paguei tranquilamente com meu cartão de crédito. Adoro a modernidade!
Peguei um trem do aeroporto para uma das estações no centro. Curioso é que não havia uma cancela para embarque, nem portão, nem um funcionário para me solicitar a passagem. Aliás, em nenhuma das estações de trem ou metrô que passei havia ninguém para conferir a passagem. Já me disseram que de vem em quando passa um funcionário conferindo as passagens, e a multa é pesada se te pegam sem uma, mas definitivamente isto nunca funcionaria no Brasil. Talvez, quem sabe, daqui a uns duzentos anos nosso povo tenha consciência suficiente para se comportar adequadamente, mas antes teríamos que extinguir essa mania de querer se dar bem sempre que se tem oportunidade. Aliás, algumas pessoas que conheço vão mais além, e demonstram uma sincera satisfação quando acham qualquer oportunidade de burlar a lei, mesmo com ganho mínimo. É lastimável!
O trem atravessava uma área semi-rural, com grandes extensões de cultivo mecanizado, e alguns conjuntos residenciais. Tudo extremamente organizado, limpo e moderno. É admirável o perfeccionismo técnico alemão! Eu deveria ter nascido na alemanha, tenho uma enorme identificação com essa cultura. Quando eu estudava alemão nos anos noventa sempre me vinha a convicção de que eu devo ter nascido aqui em uma reencadernação passada.
Desci na Marienplatz, que deduzi ser no centro. A praça estava bem cheia de gente num aglomerado que percebi como uma concentração de torcida para um jogo do Bayern München. Saí andando pelo centro a ermo tirando fotos das antigas construções. Nada chama muita atenção na arquitetura alemã, é tudo austero e simples, sem o apreço por monumentos como costuma-se ver em Paris, por exemplo.
Almocei em um restaurante típico. Comida alemã é sempre porco, geralmente na forma de algum embutido, com repolho azedo e pretzel, igual aquele que vende no shopping, mas com casca dourada e com pedacinhos de sal (grosso?). Não sabia se me preocupava com o colesterol ou com a pressão. Acho que estou ficando velho...
Voltei ao aeroporto para pegar o voo para Delhi e já no monitor da estação de trem vi a notícia que por conta das cinzas do vulcão todos os voos tinham sido cancelados. Oh não!
O aeroporto estava bem cheio. Passei pela polícia de fronteira para ganhar mais um carimbo no passaporte (vou fazer coleção), e fui atrás de informações. A fila estava interminável, e ver algumas pessoas na fila sentadas no chão me desanimou a entrar nela. Consegui falar com um funcionário da Lufthansa no meu suposto portão de embarque e o mesmo me informou que não haveria mais voo naquele dia e estavam torcendo para que no dia seguinte estivesse liberado, que eu deveria ligar para central de informações mas estava bem difícil conseguir falar com eles, e que eu deveria pegar minha bagagem no desembarque e ir pra um hotel, mas adiantou que estavam todos bastante cheios. Diante da minha expressão animada de alguém que viajou 11 horas e não dormia há 24 ele me orientou a ir para o Marriot. me deu um ticket da Lufthansa e falou que tinha um ônibus da empresa que me levaria lá.
Poxa, a Lufthansa é boa mesmo! Hospedar a gente no Mariot não é pra qualquer um não, ainda mais com todos os voos cancelados. Desci para pegar minha mala e área de esteiras de bagagem estava um caos, tinha pra mais de 5 mil pessoas tentando achar sua mala e uma total ausência de informação sobre em qual esteira acharia a minha.
A maior parte das pessoas que conheço ficam muito consternadas em situações assim, e enfrentam a situação reclamando da sorte. Mas eu não consigo. Primeiro que nunca reclamo da sorte, pois nunca resolveu nada, e segundo que ser obrigado a enfrentar horas de filas e multidões me mortifica tanto que sempre fico achando que nunca deveria ter nascido, e que meu maior desejo é morrer o quanto antes. Sei que isto parece frescura, mas é verdade, faço de tudo pra não ser obrigado a passar por uma situação assim. Foi por isto que desenvolvi uma grande capacidade de antever as adversidades e me preparar para elas. Não coloquei nada de muito valor naquela mala, e poucas roupas, só um terno e uma camisa foram caros, e tudo poderia ser facilmente reposto. Sim, já havia contado com a possibilidade de perder a mala, e horas antes do embarque comprei uma mochila de tamanho médio para levar na mão. Coloquei nela tudo de importante como documentos, cartões, remédios, celulares, carregadores, livros e uma muda de roupa, em resumo tudo que me permitiria seguir viagem caso perdesse a mala. Sendo assim, eu poderia ir para o hotel descansar e deixar pra procurar a mala no dia seguinte. Se a mesma sumisse a Lufthansa teria que me reembolsar, e além disso comprei a passagem pelo Amex, o que me deu automaticamente um seguro contra perda de bagagem de até US$ 100,00 por quilo, além de várias outras assistências para viagem. O prejuízo seria pequeno.
Nem quis saber do ônibus, que calculei estaria cheio com tanta gente tendo perdido o vôo. Meus dois smartphones me permitiram achar o endereço do hotel, olhei no google maps e havia uma estação de metrô bem perto. Minha passagem comprada para o dia todo seria mais uma vez utilizada.
Cheguei no hotel por volta das 19h. A simpática atendente perguntou se eu tinha um voucher da Lufthansa e falei que só tinha aquele papel que o funcionário havia me dado e orientado ir para lá.  Ela olhou e re-olhou a lista de reservas procurando por todos meus nomes mas definitivamente eu não estava lá, tentou ligar pra Lufthansa algumas vezes mas estava totalmente congestionado, falou com outro hotel da rede e também não encontrou nenhuma referência. Aliás, ela achava difícil que a Lufthansa pagasse meu hotel, pois o voo foi cancelado por motivos não humanos, mas se eu quisesse ficar lá ela tinha quartos disponíveis, custava apenas 199,00 euros por noite. É, alegria de pobre dura pouco...
Bem, eu poderia ficar tentando insistentemente falar com a central de atendimento da Lufthansa para ver se no meu caso, de conexão cancelada, eles bancariam um hotel para mim, mas isto poderia levar horas. Poderia também acionar a assistência de viagem da Amex ou a central do clube de hoteis que participo para ver se encontraria um hotel mais barato, mas na Europa é difícil encontrar um hotel decente por menos de 150 euros. Mas se tem uma coisa que me motiva a trabalhar feito um corno é a liberdade de poder pagar para ter um pouco de conforto, e cansado como estava conforto era o que eu precisava. O quarto era maravilhoso, tomei um belo banho na banheira com água quente e sais. Nunca antes tinha dado tanto valor a um banho de banheira. Dormi 12 horas seguidas e só levantei porque precisava ainda resolver o problema da mala e marcar o voo de continuação para Delhi.
Chegando no aeroporto fui procurar minha mala, mas me informaram que a mesma tinha seguido para Delhi e eu a pegaria lá, hummm improvável. O aeroporto havia sido reaberto e os voos retomados regularmente, boa notícia. Só há um voo diário pra Delhi e consegui marcar tranquilamente.
A viagem foi tranquila, mais uma vez não consegui dormir e fiquei lendo e assistindo filmes. Ganhei mais 3,5 horas de fuso, totalizando 8:30 horas a mais, cheguei em Delhi as 7:30 da manhã do dia 11, mas no Brasil ainda eram 23h do dia 10. Bem, vou tirar vantagem da minha constante irregularidade de horários para me adaptar ao fuso e diminuir os efeitos do jetlag, mas acho que não vai ser muito fácil.